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Atrasos em bolsas da Faperj atrapalham trabalhos científicos do RJ

quinta-feira, Março 17, 2016
 
Os bolsistas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) sofrem com a irregularidade e atrasos no pagamento do benefício. Os pesquisadores não recebem pagamento desde dezembro. Como um dos requisitos para a bolsa é a dedicação exclusiva, a falta de pagamento implica, em muitos casos, na falta do sustento que paga os custos de suas pesquisas. Por causa disso, várias pesquisas relevantes que geram dados científicos relevantes estão paradas por falta de investimento.
 
Os bolsistas da Faperj não foram pagos no mês de janeiro. O valor de fevereiro foi prometido para o mesmo dia de pagamento dos servidores estaduais, na última sexta-feira (11). Porém, os valores não foram depositados até a edição desta reportagem. Questionada pelo G1, a instituição informa que o pagamento não foi realizado por causa de um problema técnico no novo sistema da Secretaria de Fazenda que opera a transferência bancária.
 
Em um encontro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Os bolsistas foram informados que o pagamento do benefício de janeiro só será realizado no mês de julho. A notícia foi comunicada pelo subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio, Tande Vieira. O encontro na assembleia tinha como objetivo a discussão do Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 19/2016, que tem como objetivo reduzir em 50% o orçamento da Faperj.
 
A antropóloga Stella Rodriguez, da UFRJ, faz um trabalho de mapeamento da comunidade quilombola de Vargem Grande, localizada no maciço da Pedra Branca. Durante seis meses, o trabalho da pesquisadora percorreu caminhos e coletou dados que os órgãos oficiais não possuem sobre os moradores da região. Além do trabalho cartográfico, Stella registrou costumes e histórias do grupo em seu trabalho de pós-doutorado pela UFRJ.
 
A bolsa que Stella recebe está atrasada desde dezembro, assim como o de todos os outros pesquisadores. Assim, a pesquisa que já contava com poucos recursos, praticamente parou.
 
“Não dá para ir a campo sem ter recursos para se mobilizar. Tudo tem uma despesa. A bolsa é o nosso ganha pão. É o nosso salário. Você assina um contrato de exclusividade e tem que se dedicar à pesquisa que produz”, afirma Stella.
 
Além dela, outros cinco mil pesquisadores considerados de excelência no Estado do Rio não sabem como vão seguir com seus estudos ou mesmo pagar as próprias contas. As bolsas da Faperj, que oferece valores que são considerados como acima do mercado científico brasileiro, costumam atrair os melhores estudantes dos cursos que possuem melhor qualificação nas diversas áreas do conhecimento nas universidades do RJ.
 
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro é subordinada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do Governo do Estado do RJ. Atualmente, os bolsistas de iniciação científica recebem R$ 420 por mês. Os do mestrado ganham R$ 1,6 mil ou R$ 2,2, dependendo da qualificação do curso onde estudam e de suas notas. Os cientistas que estão no doutorado recebem R$ 2,3 mil ou 3,05 mil, de acordo com os mesmos critérios. Os de Pós-doutorado recebem R$ 4,7 mil. As informações sobre valores foram passadas pela própria Faperj. Os contratos não incluem nenhum benefício como o pagamento do 13º salário ou FGTS.
 
“Para mim, a Faperj sempre foi uma instituição séria. Para muitos de nós, ser escolhidos pela Faperj sempre foi uma honra e fazer parte dela é uma espécie de mérito. São bolsas com uma grande concorrência e fazer parte da instituição é uma espécie de prêmio. Nós nos encontramos em uma situação de humilhação. De vexame. Nós não estamos honrando as nossas contas. E você vai ficando sem energia para se dedicar à pesquisa. Porque você só pensa em como vai pagar as contas do mês”, explica a antropóloga.
 
Uma prova da importância do conhecimento gerado pela pesquisadora é o depoimento de Sandro da Silva, de 42 anos, que nasceu e cresceu na comunidade pesquisada por Stella. Ele afirma que todos os quilombolas estão, pela primeira vez, conseguindo enxergar a importância da própria história.
 
“O trabalho dela é inédito, porque nunca tivemos o mapeamento dessa área. Somos desconhecidos pelo Ipea, pelo IBGE. E o trabalho dela mostra o nosso modo de vida e a nossa cartografia. Nós estamos nos vendo. Não tínhamos a ideia da amplitude e diversidade do que somos. Por isso ele precisa continuar”, explicou Sandro.
 
Outro pesquisador que sofre com a falta de pagamento da bolsa de pesquisa é o historiador Gabriel Siqueira, mestrando no Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana na Uerj. Classificado como um aluno de “mestrado nota 10”, graças à boa nota, ele trocou uma bolsa do Capes por uma da Faperj. Ele reclama da falta de informações da instituição sobre o problema, o que aumenta a insegurança dos estudantes.
 
“Nós não recebemos informações e não somos assistidos da maneira que deveríamos ser. A instituição se esquiva, passa informações que não se concretizam”, explicou Gabriel, que afirma que vive com a ajuda do irmão, da família e de amigos.
 
Ele afirma que, apesar das dificuldades, tenta conduzir sua dissertação sobre os impactos das políticas afirmativas na Uerj.
 
“Eu continuo pesquisando porque não quero me atrasar e nem atrasar o meu programa. A universidade da qual eu faço parte merece que eu a termine”, explicou o pesquisador.
 
O biólogo Luiz Duarte, aluno do doutorado do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Evolução da Uerj trabalha na identificação e conectividade genética de peixes que vivem em recifes da Baía de Todos os Santos.
 
Algumas espécies estudadas pelo pesquisador estão em extinção e não possuem nenhuma informação genética armazenada no mundo. Uma delas terá a primeira sequência de DNA da espécie disponibilizada após a conclusão do trabalho. A falta de verba, usada para custear os gastos gerados pela coleta do material no fundo do mar, como embarcações, cilindros de mergulho, combustível e material de coleta são bancados pela bolsa.
 
“Estou atrasado nas amostragens. Deveria ter concluído os censos visuais ainda este mês, mas não foi possível. Preciso ir ao Rio de Janeiro para continuar sequenciando as amostras de DNA e pegar as disciplinas do doutorado. Mas sem bolsa há dois meses estou com o nome no SPC e sem condição de dar continuidade ao trabalho”, explicou o biólogo.
 
A falta de pagamento, além de atrapalhar a pesquisa, complica a sua vida pessoal, já que a bolsa é o sustento de Luiz. Ele afirma que, além da pesquisa, a falta de pagamento atrapalha o seu sonho. Luiz acompanhou a sessão da Alerj que discutiu o atraso e a PEC que prevê a redução do orçamento da Faperj em 50%.
 
“Pedi empréstimo a um amigo para renovar minha CNH e poder continuar dirigindo. Existem peixes do doutorado esperando para serem processados no congelador da minha casa. Não tenho como viajar para Feira de Santana, onde faço a extração do DNA e deposito os peixes no Museu de Zoologia da UEFS, parceira no estudo”, conclui Luiz.
 
 

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